Terapia de casal ou individual: qual escolher quando as coisas não estão bem?
- Dra Raquel Custódio

- 21 de jun.
- 4 min de leitura
Quando uma relação atravessa uma fase de maior distanciamento ou de conflitos frequentes, é muito natural que a primeira ideia que nos venha à cabeça seja procurar ajuda profissional. No entanto, diante do sofrimento na vida a dois, surge quase sempre um dilema clínico muito comum: será mais indicado optar por uma terapia de casal ou individual?
Afinal, se o mal-estar se faz sentir no espaço que partilhamos, parece lógico que a resposta esteja num formato conjunto. No entanto, este é um dos caminhos mais bonitos e complexos da psicologia: nem sempre o sofrimento na relação significa que o ponto de partida ideal seja uma terapia a dois.
Às vezes, o maior ato de amor pela relação começa por um convite individual para olharmos para dentro.
Compreender a Terapia de Casal: Cuidar do espaço partilhado
Dizer que na terapia de casal o "cliente" é a relação pode parecer um pouco abstrato. Para ajudar a visualizar, podemos pensar no acompanhamento que os psicólogos fazem às crianças. Quando os pais levam um filho à consulta, a prioridade absoluta do terapeuta é compreender o que aquela criança precisa para crescer de forma saudável e feliz, independentemente das expectativas ou frustrações que os pais possam ter naquele momento.
Na terapia de casal, acontece algo muito semelhante. É como se a vossa união fosse um "terceiro elemento" na sala: um ecossistema que criaram juntos e que agora precisa de cuidado. O terapeuta não está ali para julgar, para descobrir quem tem razão ou para dar ferramentas para que um ganhe poder sobre o outro.
O seu papel é o de um mediador sensível, alguém que ajuda a traduzir o que cada um está a tentar dizer e a construir uma linguagem comum, segura e confortável para os dois.
Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e as abordagens sistémicas, esta é uma intervenção habitualmente focada no presente, que visa reorganizar a dinâmica, a sexualidade e a comunicação do casal.
O que é meu e o que é nosso?
Há dores, reações e bloqueios que, embora influenciem o casal todos os dias, têm a sua raiz na nossa história individual. E está tudo bem que assim seja. Contudo, tentar resolver estas questões numa terapia de casal pode sobrecarregar o espaço e estagnar o processo.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e as teorias de vinculação explicam que cada um de nós entra numa relação com a sua própria história e com filtros muito específicos através dos quais lê o mundo. Existem aspetos que beneficiam profundamente de um espaço terapêutico individual, tais como:
Os nossos padrões de vinculação: Compreender se temos uma tendência mais ansiosa (que nos faz procurar garantias constantes de amor) ou mais evitante (que nos leva a recuar quando a intimidade aumenta).
As nossas interpretações automáticas: Aqueles momentos em que o outro está mais silencioso e a nossa mente assume imediatamente que "ele já não quer saber de mim" ou "fiz alguma coisa errada".
A nossa regulação emocional: Aprender a acalmar o nosso próprio sistema nervoso quando nos sentimos com medo, inseguros ou zangados, antes de reagirmos.
Identificar e comunicar limites: Perceber o que realmente precisamos e aprender a expressá-lo de forma clara, sem esperar que o outro adivinhe.
Se eu não conseguir decifrar as minhas próprias necessidades ou se os meus medos antigos guiarem as minhas reações de hoje, a terapia individual será o solo mais seguro para tratar dessas raízes.
A importância de uma estrutura segura
Para ilustrar como o bem-estar individual sustenta a vida a dois, o Gottman Institute - uma das maiores referências no estudo científico das relações - criou o modelo da Casa da Relação Segura.
Este modelo mostra-nos que uma relação sólida se constrói através de pilares como a confiança, o conhecimento profundo do mundo do outro (os chamados "Mapas do Amor") e a partilha de afeto. Mas para conseguirmos "Gerir o Conflito" ou "Criar Significado Partilhado", precisamos que cada um dos parceiros esteja minimamente estruturado e regulado por dentro. Se um de nós estiver emocionalmente exausto ou em sofrimento individual profundo, a casa comum vai ressentir-se.

O cuidado com a neutralidade
Se sentirem que ambos os formatos de terapia fazem sentido para o vosso momento atual, há um princípio ético essencial que a OPP e os manuais de terapia familiar salvaguardam: o terapeuta de casal não deve ser o terapeuta individual de nenhum dos membros.
Este cuidado serve para proteger a total neutralidade do processo. Se um psicólogo já acompanha uma das pessoas individualmente, ele já conhece as suas defesas, a sua história e as suas dores. Se mais tarde entrarem os dois na mesma sala, o outro parceiro poderá sentir-se, de alguma forma, em desvantagem ou inibido. O espaço de casal deve ser um terreno perfeitamente neutro e seguro, onde ambos começam do mesmo ponto de partida.
Um pequeno guia de orientação: Terapia de casal ou individual?
Se ainda sente dúvidas sobre qual o melhor passo a dar, pode guiar-se por estas pistas simples:
A Terapia Individual faz sentido se: Percebe que os seus medos, inseguranças ou reações intensas se repetem independentemente do comportamento do outro; se o seu parceiro não se sente confortável para procurar ajuda neste momento; ou se precisa de um espaço só seu para entender o que sente e estabelecer limites.
A Terapia de Casal faz sentido se: Ambos reconhecem o amor que vos une, mas sentem que perderam a capacidade de comunicar sem discutir; se atravessam uma crise ou transição difícil (como a chegada dos filhos ou uma perda); e se existe o compromisso mútuo de querer olhar e reparar o vínculo.
Procurar ajuda, seja para olhar para si ou para a relação, não é um sinal de falha. É, acima de tudo, um voto de respeito pelo vosso bem-estar e pelo futuro daquilo que constroem juntos.
📚 Fontes e Referências de Suporte:
Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP): Código Deontológico e linhas de orientação sobre a neutralidade e enquadramento da prática clínica.
The Gottman Institute: The Sound Relationship House Theory (Modelo baseado em décadas de investigação empírica sobre dinâmicas conjugais por John e Julie Gottman).
Modelos Sistémicos e Manuais de Terapia Familiar: Foco na ecologia relacional e na definição da relação como foco central da intervenção.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Aplicação dos modelos de esquemas e processamento cognitivo individual no contexto das interações amorosas.



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